Novos rumos na produção de hortaliças

Warley M. Nascimento - Ph.D., Fisiologia de Sementes
Embrapa Hortaliças


Estima-se que a produção atual de hortaliças no Brasil seja superior a 11 milhões de toneladas com um valor aproximado de 2,5 bilhões de dólares. Esta produção em nosso país apresenta características contrastantes, revelando enormes diferenças na adoção de insumos e tecnologias. Nos últimos anos, a crescente demanda e a exigência pôr produtos de melhor qualidade, tem afetando significativamente a forma da produção e comercialização das hortaliças. Neste sentido, nota-se em diferentes regiões do país, o emprego de novas tecnologias visando a otimização da produção olerícola. Avanços em tecnologias de precisão, incluindo "Global Positioning System" (GPS), cultivo protegido, "mulching", sistemas computadorizados, fertirrigação, hidroponia, programas de manejo integrado de pragas e doenças, uso de sementes híbridas e/ou produtos geneticamente modificados (transgênicos), mudanças nos hábitos alimentares, e consequentemente mudanças na forma de comercialização, vem sendo associados com a produção olerícola.

O cultivo protegido já é uma realidade em diferentes regiões produtoras. O sistema mais difundido atualmente é a utilização de estufas ou estruturas afins. A utilização destas estruturas possibilita aumentos de produtividade em pequenas áreas e principalmente em períodos de entre-safra; o produto final deste sistema é uma maior estabilidade da produção. Ainda, o cultivo protegido propiciará produtos de alta qualidade e mais saudáveis, características estas buscadas cada vez mais pelos consumidores. Como este sistema requer um alto investimento inicial, a maximização da produção deve ser enfatizada; outras mudanças na forma de produção são trazidas conjuntamente. A técnica do "mulching" (uso de coberturas em canteiros, principalmente polietileno) também vendo sendo utilizada em algumas espécies a vários anos. As vantagens conhecidas desta tecnologia são: a melhor retenção de umidade no solo, minimizando assim a utilização de irrigação e consequentemente diminuindo custos; o maior controle de plantas daninhas; o maior controle de doenças (através da solarização); a redução da lixiviação de fertilizantes; a maior precocidade, devido a maior temperatura do solo; a diminuição da compactação do solo; a obtenção de maiores produtividades e de produtos de melhor qualidade.

O sistema de hidroponia bem como outros sistemas "soilless" tem também aumentado significativamente nos últimos anos. Embora a alface seja a principal cultura, outras folhosas como agrião, salsa, coentro, rúcula , etc, também vem sendo produzidas neste sistema. Como vantagens deste sistema, podemos destacar um menor consumo de água e fertilizantes, uma ausência de lixiviação de fertilizantes, uma menor incidência de pragas e doenças, uma maior densidade de plantas, e maiores produtividades. A hidroponia, geralmente, permite a obtenção de produtos de melhor qualidade em relação aos produtos obtidos pelo sistema convencional. Neste sistema, maiores preços tem sido obtidos pôr aqueles produtores especializados. Juntamente com o cultivo orgânico, a hidroponia vem buscar um nicho de mercado altamente exigente em produtos mais saudáveis, uma vez que existe uma redução ou mesmo uma não utilização de agrotóxicos.

A forma de estabelecimento de plântulas no campo também vem sendo modificada. Nos últimos anos temos observado uma tendência no uso de mudas para posterior transplantio em diversas hortaliças. O desenvolvimento e emprego de variedades melhoradas e/ou sementes híbridas de alto custo tem colaborado para estas mudanças na produção. Além disto, nas condições de estufas, onde as mudas são produzidas, a emergência das plântulas em bandejas é maximizada, devido às melhores condições de germinação e melhores tratos culturais no início do estabelecimento das plântulas. Como exemplo, pode-se observar, em grandes áreas, no segmento de tomate destinado à agroindústria, a utilização de híbridos bem como um manejo cultural moderno, incluindo várias operações mecanizadas, como o transplantio de mudas. Para se ter uma idéia do nível tecnológico, já existem, no mercado americano, transplantadeiras que utilizam um sistema de infravermelho para detectar e evitar "células" vazias (sem mudas) nas bandejas pôr ocasião do transplantio.

Para atender tanto ao produtor de mudas, como ao produtor de hortaliças, diversas empresas de sementes oferecem sementes com características extras, sejam sementes de alto vigor, isentas de determinados patógenos ou indexadas ("virus free" – livre de LMV em sementes de alface, pôr exemplo), sementes calibradas, peletizadas, osmoticamente condicionadas, peliculizadas, etc. Este valor agregado visa uma diferenciação do produto pôr parte da companhia de sementes, como também apresenta, em determinadas situações, algumas vantagens pôr ocasião da germinação e estabelecimento da lavoura.

A forma de irrigação também vem sofrendo mudanças dentro do sistema de produção de hortaliças. A escassez de água nas regiões produtoras, o alto custo da irrigação, a qualidade da água, e os problemas fitosanitários afetando consideravelmente a produtividade e a qualidade dos produtos obtidos, tem alterado a forma de irrigação para muitos olericultores; soma-se a isto, o incremento da plasticultura, como "mulching", túneis e estufas. Assim, a irrigação pôr gotejamento, bem como a fertirrigação são atualmente sinônimos de alta tecnologia aliada a altas produtividades. O uso racional da água e fertilizantes se complementam na obtenção de altas produtividades, com reduzido desperdício.

Ainda em menor escala nas nossas condições, mas com perspectiva de crescimento, é a mecanização na etapa da colheita. Já existem produtores altamente mecanizados, onde a utilização de colheitadeiras vem sendo uma realidade. Exemplo disso são extensas áreas produtoras de tomate para indústria, com a utilização de variedades e/ou híbridos com características (plantas mais compactas, porte determinado, produção uniforme e concentrada na maturação dos frutos) que permitam o uso destas colheitadeiras. Em países com produção intensiva de hortaliças, como é o caso dos EUA, é bastante comum a utilização de máquinas na colheita de diversas olerícolas, como milho-doce, ervilha, tomate, feijão-vagem, alface, aipo, rabanete, cenoura, batata, cebola, etc.

Não poderíamos deixar de mencionar a rapidez e a forma de obtenção das cultivares e/ou híbridos utilizados na implantação das lavouras. A obtenção destes materiais de alta qualidade e produtividade, principalmente os híbridos, sejam eles obtidos através do melhoramento convencional ou principalmente obtidos através das novas ferramentas da biotecnologia, tem revolucionado a olericultura. Neste final de século presenciamos o desenvolvimento de plantas transgênicas ou produtos geneticamente modificados. Através da engenharia genética, características desejáveis são transferidas seletivamente de um organismo para outro. Com a população dobrando nos próximos quarenta anos, a biotecnologia, segundo os especialistas, chegou com a habilidade de aumentar a produção e melhorar a qualidade nutricional dos produtos agrícolas. Está disponível ou é esperado para os próximos anos, a entrada no mercado de produtos olerícolas com características não conseguidas anteriormente através do melhoramento convencional . Como exemplo, pode-se citar produtos como o tomate com características de longa vida ("long shef life"), mini melão sem sementes ("seedless"), pimentão com melhor sabor, batata mais sólida (significando menos óleo a ser absorvido durante a fritura), e com resistência a viroses e insetos, milho-doce (utilizando Bt) resistente a insetos, tomate com melhor sabor e maior teor de vitaminas, tomate resistente a CMV, abóbora resistente a viroses, dentre outras.

Finalmente, a forma de comercialização dos produtos hortícolas passa pôr mudanças que visam atender as necessidades dos produtores, dos atacadistas, dos supermercados, etc., como uma redução pós-colheita, pôr exemplo, como também dos consumidores. A classificação, padronização, embalagens, origem do produto, etc., vem sendo mais e mais exigidas pôr parte dos atacadistas e supermercados. Produtos congelados ou minimamente processados ("fresh cut") são também segmentos em franca expansão, principalmente nos grandes centros consumidores. O crescimento espantoso de empresas de alimentação do tipo "fast food" tem também contribuído significativamente para o aumento deste segmento. Agregar valor ao produto, como beneficiamento, embalagem, rotulagem, códigos de barra, informações sobre conservação, valor nutricional, receitas culinárias, modos de consumo, etc., também resultam em uma melhor imagem, aceitação e confiabilidade do produto olerícola.

Estes são alguns dos vários exemplos da "revolução" no sistema de produção e comercialização de hortaliças nesta virada do milênio. O crescimento da população, a crescente urbanização, as pressões crescentes para a preservação do meio ambiente e da saúde humana, a melhoria na dieta alimentar, a globalização, etc., exigirão da olericultura nacional um re-direcionamento, seja na pesquisa geradora de novas tecnologias ou na produção. Tudo isto permitirá um maior e melhor abastecimento interno e uma maior competitividade aos produtos importados, bem como às exportações.


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