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 A Embrapa Hortaliças
 
       
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  Plantio de hortaliças no período de chuvas requer manejo adequado

 

Ailton Reis & Leonardo S. Boiteux
Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa de Hortaliças (CNPH), Embrapa Hortaliças, CP 218, 70359-970, Brasília (DF).

Prejuízos causados pela chuva na produção de hortaliças

No período chuvoso as perdas nas lavouras de hortaliças podem atingir entre 50-100% devido ao aumento da severidade de doenças foliares, incidência de podridões e outros danos em frutos, redução na disponibilidade de pólen, queda prematura de flores e aborto de frutos. Durante períodos de elevada precipitação pluviométrica, o encharcamento mais prolongado do solo prejudica o crescimento radicular e, consequentemente, o desenvolvimento das plantas com reflexo na produção. Portanto, durante o período chuvoso de verão, é fundamental que o produtor de hortaliças adote, de maneira integrada, uma série de medidas que previnam os impactos negativos na produção, incluindo: manejo cultural bem como o uso de variedades mais rústicas, com o maior número possível de fatores de resistência genética e melhor tolerância ao excesso de umidade. .

Efeito da chuva na ocorrência de doenças bacterianas

Os prejuízos causados pelas doenças bacterianas em hortaliças, principalmente aquelas que atacam as partes aéreas das plantas, são mais acentuados no período chuvoso. É comum o relato de perdas de até 100% para algumas bacterioses como a mancha-bacteriana do tomateiro e da pimenta, a canela preta da batata e a mancha-bacteriana da alface. A incidência de doenças bacterianas é maior em períodos quentes e chuvosos porque estes patógenos são dependentes de água livre durante os processos de penetração, colonização, infecção e disseminação. A penetração de bactérias nos tecidos vegetais ocorre por meio de aberturas naturais (estômatos, hidatódios e nectários) e/ou ferimentos. No entanto, para que isso ocorra é necessário que haja um filme d’água entre o ambiente externo e o interno que funcione como um carreador de células bacterianas. Após a colonização e infecção, processos geralmente favorecidos por temperaturas mais elevadas (>28oC), células bacterianas produzidas nos espaços intercelulares alcançam a superfície por meio destas aberturas naturais dos tecidos vegetais e são disseminadas via respingos d’água e aerossóis (partículas de água carreadas pelo vento). Esta dispersão ocorre de maneira mais eficiente em períodos chuvosos.

Exemplos de doenças bacterianas importantes em hortaliças são a mancha-bacteriana do tomateiro e das pimentas, causada por espécies de Xanthomonas; a pinta-bacteriana do tomateiro, causada por Pseudomonas syringae pv. tomato; a murchadeira em solanáceas (tomate, batata, pimentão, etc.), causada por Ralstonia solanacearum e a podridão-mole dos frutos e talo-oco em diversas solanáceas (tomate, pimentão, berinjela, etc ...), causadas por Dicheya spp. e Pectobacterium spp. (ambas anteriormente classificadas no gênero Erwinia). Em outros grupos de hortaliças podem ser citadas a podridão mole em cebola, cenoura e hortaliças folhosas (principalmente alface, couve-chinesa e repolho), causada por Pectobacterium spp.; mancha bacteriana da alface, causada por X. campestris pv. vitians; queima-das-folhas da cenoura, causada por X. hortorum pv. carotae; podridão negra das brássicas, causada por X. campestris pv. campestris e mancha aquosa do melão e da melancia, causada por Acidovorax citrulli.

Efeito da chuva na ocorrência de doenças fúngicas

Praticamente todas as etapas do ciclo de vida bem como do processo de infecção da planta por fungos fitopatogênicos são favorecidas durante o período de verão chuvoso. Alguns fungos fitopatogênicos, como aqueles dos gêneros Colletotrichum e Septoria, necessitam do impacto de gota d’água (chuva ou irrigação) para sua dispersão dentro da lavoura. O excesso de umidade favorece a esporulação, germinação dos esporos, disseminação e infecção. Outro aspecto que resulta na maior incidência e severidade de doenças fúngicas no verão é a redução da eficiência do controle com produtos químicos. Esta baixa eficiência é resultado principalmente da dificuldade “física” do produtor entrar na lavoura com os tratores e equipamentos para pulverização e pelo próprio excesso de chuva que lava tais produtos reduzindo o período de cobertura das folhas. Esta última dificuldade é ainda mais acentuada quando o fungicida é de contato.

Há uma infinidade de doenças fúngicas, que causam grandes prejuízos na produção de hortaliças. No tomateiro, algumas doença fúngicas importantes são a mancha-foliar de Septoria (mancha-de-septória), causada por Septoria lycopersici; a pinta-preta, causada por Alternaria tomatophila; a mancha-cinza, causada por Stemphylium solani e S. lycopersici e e a requeima; causada pelo oomiceto Phytophthora infestans. A disseminação entre plantas de propágulos de patógenos de solo tais como Fusarium e Verticillium dahliae, agentes de murchas vasculares no tomateiro, é também favorecida em períodos de excesso de umidade. Também são observadas, durante o período chuvoso, maiores freqüências de perdas de frutos em tomateiro induzidas por podridões, tendo especial destaque às causadas pelos fungos Alternaria spp., Rhizoctonia solani, Phytium spp., Phytophthora nicotianae e P. capsici. A batateira, por ser da mesma família botânica do tomateiro, compartilha com este algumas doenças fúngicas, com destaque para a pinta-preta (A. grandis) e a requeima. Espécies do gênero Colletotrichum também causam grandes prejuízos em hortaliças na época das chuvas, tais como C. gloeosporioides e C. acutatum, agentes da antracnose do pimentão, do jiló e da berinjela e C. lagenarium, agente da antracnose das cucurbitáceas (chuchu, pepino, abóbora e melancia). Exemplos de doenças fúngicas importantes em outras hortaliças são a queima-das-folhas da cenoura, causada por A. dauci e Cercospora carotae; a mancha-púrpura da cebola, causada por A. porri; a mancha-de-alternaria das brássicas, causada por A. brassicicola e A. brassicae; a mancha alvo do pepino, causada por Corynespora cassiicola e a mancha-de-septória da alface, causada por S. lactucae.

Efeito da chuva na ocorrência de viroses

As modificações fisiológicas ocasionadas nas plantas pelo excesso ou escassez de chuvas podem ser importantes para aumentar ou diminuir a susceptibilidade às infecções causadas por vírus, porém estas são muito pouco estudadas. Certamente, o maior efeito da chuva é observado sobre a população de vetores transmissores de vírus. Como regra geral, o excesso de chuva pode promover a redução de insetos-vetores e assim resultar na diminuição da ocorrência de doenças causadas por vírus. Um exemplo notório é a maior incidência da doença vira-cabeça (Tospovirus) em solanáceas (tomate e pimentão) e em abóbora na época seca, período em que os tripes são mais ativos. É preciso considerar que a incidência de doenças causadas por vírus não é diretamente proporcional à população de vetores. Não é raro observar casos de 100% de infecção por alguma doença sem que o vetor seja visto no campo, como por exemplo nas doenças causadas por Potato virus Y e Pepper yellow mosaic virus em pimentão, transmitidos por pulgões, e geminivírus em tomate, transmitidos por moscas-brancas.

Efeito sobre a ocorrência de doenças causadas por nematóides

As principais espécies que afetam hortaliças são os nematóides de galhas (Meloidogyne incognita e M. javanica) que também são favorecidos por períodos prolongados de alta temperatura (25-28oC), comuns durante o período de verão chuvoso. Nestas circunstâncias, estes nematóides podem causar perdas de até 100% em cultivares susceptíveis (cultivares ou híbridos que não apresentam o gene Mi responsável pela resistência aos nematóides). Além disso, períodos com excesso de chuvas proporcionam a disseminação rápida destes patógenos dentro das áreas de cultivos. O excesso de umidade, aliado às temperaturas elevadas do solo propiciam ciclos de vidas mais rápidos, com aumentos do número de geração e do potencial de inóculo das espécies de Meloidogyne em raízes e outros órgãos subterrâneos em hortaliças, que consequentemente causam grandes prejuízos a estas culturas no Brasil.

Manejos e práticas culturais visando reduzir os danos pela chuva

O principal modo de transmissão da maioria das doenças bacterianas e fúngicas de importância durante o verão é via semente. Desta forma, a sanidade das sementes é um pré-requisito fundamental para o sucesso da lavoura. Além disso, cuidados devem ser tomados desde a produção das mudas até a colheita, como limpeza e desinfestação de implementos de desbrota; aplicação preventiva com agrotóxicos registrados pelo MAPA; restrição do trânsito de pessoas em viveiros de mudas, prevenindo a entrada de patógenos e/ou vetores advindos de campos ou telados onde existiam plantas com sintomas.

Para doenças bacterianas e fúngicas transmitidas pelo solo o controle químico é pouco eficaz por diversos motivos, como interação com partículas do solo que podem inativar os princípios ativos e o fato de os patógenos “do solo” poderem se abrigar em diferentes camadas (profundidade) nos solos. Uma das medidas mais eficientes é a escolha criteriosa da área de plantio, de preferência com um registro do histórico das lavouras conduzidas em safras anteriores. No caso da murcha de R. solanacearum, é interessante o produtor atentar para o fato que ocorre, muito freqüentemente no Brasil, de uma variante chamada “campo-bio” que é capaz de induzir sintomas em áreas novas, recém desbravadas. Para todas as doenças bacterianas e causadas por nematóides, deve-se ainda aliar medidas como a rotação de culturas, geralmente com gramíneas (2-5 anos dependendo do patógeno), a sanitização (limpeza de ferramentas e implementos), o “roguing” (eliminação de plantas doentes) e a restrição de acesso de implementos oriundos de áreas sabidamente contaminadas.

O excesso de água no sistema radicular resulta na redução do crescimento e desenvolvimento das plantas. Neste contexto, a utilização de canteiros mais altos (20-40 cm de altura) reduz os danos associados com o excessivo encharcamento do solo. Ensaios conduzidos na Embrapa Hortaliças avaliando o uso de coberturas plásticas simplificadas do tipo guarda-chuva (de custo mais baixo do que as coberturas plásticas convencionais) reduzem perdas devido a fungos foliares, permitem boa ventilação da lavoura, aumentam o pegamento dos frutos e permite uma maior persistência na folhagem dos agrotóxicos aplicados. Estudos de análise econômica indicam a viabilidade deste tipo de cobertura especialmente porque permite o uso em mais que uma safra e em períodos onde os preços se encontram mais atraentes para os produtores. No entanto, o uso destas estruturas pode ser inviabilizado em áreas com solos onde existe a ocorrência endêmica de patógenos.

Variedades mais adaptadas ao período chuvoso

A resistência genética varietal é o método mais adequado de controle de doenças, pois não implica em modificações no sistema de produção recomendado para a cultura e/ou elevação significativa de custo, já que a tecnologia está “embutida” nas sementes. As variedades de hortaliças mais indicadas para o plantio em épocas chuvosas são aquelas que apresentam o maior número possível de genes/fatores de resistência a fungos, bactérias, nematóides e vírus. A tolerância às rachaduras em frutos e órgãos de reserva (raízes tuberosas, tubérculoe e bulbos), bom pegamento de frutos em altas temperaturas e tolerância ao encharcamento também são importantes atributos de cultivares para verão. Infelizmente, os catálogos da empresas que comercializam sementes de hortaliças apresentam poucas variedades combinando estas características, especialmente os híbridos importados, que foram desenvolvidos para serem produzidos em condições de clima ameno e com ausência de chuvas intensas e freqüentes. Investir nestes híbridos, com sementes de preços elevados, em plantios de verão é, portanto, um risco adicional, especialmente em condições de campo aberto.

Conclusões

O plantio de hortaliças na época das chuvas é uma atividade de enorme risco. Por outro lado, esta é uma “aventura” extremamente tentadora devido à possibilidade de um grande retorno financeiro proporcionado pelo natural aumento de preços destes produtos durante este período do ano. No período de chuvas, é fundamental que o produtor de hortaliças adote, de maneira integrada, uma série de medidas que previnam impactos negativos na produção incluindo: uso de mudas e sementes sadias, manejo cultural, uso de variedades mais rústicas (com o maior número possível de genes de resistência a doenças e tolerância ao excesso de umidade).

 
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