Embrapa Hortaliças


Descuido estraga até 25% das hortaliças
Cartilha vai ensinar consumidores como comprar e cozinhar frutas e verduras para evitar o desperdício de alimentos

A sabedoria em comprar hortaliças nos supermercados ou em qualquer feirão de verduras não consiste apenas em levar os melhores produtos para casa, mas, sobretudo, em deixar intactos aqueles alimentos que não foram selecionados. Se os consumidores assim fizessem, não tirariam a paciência de quem chegou depois dele à prateleira — e ainda pagariam menos pelos alimentos. A arte de vender frutas e verduras, mais do que oferecer quantidade e qualidade, depende de saber apresentar os alimentos aos consumidores, de saber transportá-los do distribuidor às gôndolas e de saber armazená-los no próprio ponto de venda. Se todos os comerciantes fizessem isso, as mercadorias teriam melhor qualidade nutricional e física. E os consumidores não precisariam levar vinte minutos para escolher cinco pepinos — estragando os que não foram escolhidos.
Como ninguém faz direito sua parte — incluindo ainda nessa cadeia o produtor e o atacadista — toneladas de alimentos estragados vão para o lixo diariamente. Da cenoura, por exemplo, perde-se 12% no processo pós-colheita (da saída do campo à mesa do consumidor). O estrago do tomate nesse processo chega a 14% e o índice de perda do pimentão é de 18%.
Os dados foram colhidos numa pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), junto com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF) e com a Fundação de Apoio a Pesquisa do GDF. Até então, por meio de levantamentos feitos por cooperativas agrícolas, universidades e empresas privadas, se sabia que havia muito desperdício, mas não se estudava a quantidade nem os motivos que levam a tanto estrago.
‘‘Hoje podemos dizer que perdemos entre 5% e 25% das hortaliças que colhemos. Mas, sabendo as razões, é possível diminuir as perdas’’, afirma a coordenadora da pesquisa, Milza Moreira Lana. O levantamento foi feito por doze meses, com a parceria da rede de supermercados Planaltão.
Os técnicos garantem que mesmo tendo utilizado apenas um ponto (rede) de venda como objeto de pesquisa, os resultados podem ser considerados uma média, pois as características de distribuição, transporte, armazenamento e apresentação dos produtos são muito semelhantes em todo o varejo.

Cartilha

O projeto da Embrapa e da Emater tem como objetivo conter o desperdício de alimentos nos quatro pontos que formam a cadeia do processo pós-colheita: produção,  atacado, varejo e consumo. Mas nessa primeira fase do  trabalho eles se dedicam a instruir os varejistas. Na quinta   e na sexta-feira da semana passada, os técnicos  ministraram um curso para os funcionários do Planaltão  que trabalham com hortaliças. Os pesquisadores foram   alertá-los sobre os cuidados que os alimentos exigem no  seu manuseio.
Os supermercadistas e feirantes têm sua parcela de  culpa no desperdício. Mas é injusto dizer que eles  poderiam resolver tudo sozinhos. Afinal, o feirante já   compra os produtos dos atacadistas nas impróprias  caixas de madeira. E o atacadista, por sua vez, já compra  a cenoura torta do produtor — por sua aparência, ela é  rejeitada pelo consumidor e apodrece nas gândolas.  O varejista, claro, também têm suas justificativas. ‘‘Perco  até 30% do que compro para revender porque alguns consumidores amassam, rasgam e furam os alimentos’’, diz o comerciante Eládio Costa da Silva, dono do Verdurão Dassafras, na 215 Norte.  Ele afirma que trabalha com caixas de papelão e de plástico, mantem poucos e selecionados produtos em cada prateleira e se oferece para escolher os alimentos no lugar do consumidor. Mas, nem assim, consegue evitar as perdas. ‘‘Acredito que seja uma questão de educação. Alguns clientes nem percebem que estão estragando os produtos de quem for comprar depois’’, opina o comerciante.
O gerente do Super Varejão Oba, na 209 Norte, Luiz  Vanderley dos Santos, reforça às críticas de seu colega. Santos diz que é bem seletivo nas verduras que compra, justamente para que seus clientes não passem muito tempo escolhendo (e manuseando) o produto. Entretanto, ele calcula que seu desperdício fique entre 15% e 20%. Os consumidores também têm suas queixas. A professora Maria Carolina Pereira, de 45 anos, afirma que escolhe com cuidado suas verduras, mas reconhece que existem muitos consumidores desajeitados. Ele ressalta,  porém, que nem sempre é possível acertar a compra com  uma olhadinha. ‘‘É preciso ter cuidado, mas também é  necessário escolher os produtos.’’
Para a também professora Sandra Israel, 52 anos, o consumidor pode cair numa armadilha se não estiver atento. ‘‘Muitas vezes compramos o que parece bom, mas em casa a gente descobre que o produto está estragado. Já voltei em muitos supermercados para reclamar’’, conta Sandra. ‘‘Os verdureiros colocam uma abobrinha sobre a outra, machucando as que ficaram embaixo. Se o consumidor está pagando, tem que exigir o melhor.’’
De acordo com a pesquisadora Milza Moreira Lana, tanto atacadistas e produtores, como comerciantes e consumidores, só vão se entender quando fecharem uma espécie de acordo de cavalheiros. ‘‘O comerciante tem  que oferecer qualidade e o consumidor, por sua vez, tem  que confiar nele e parar de furar o plástico dos produtos  embalados para saber o que tem dentro.’’  O comportamento do consumidor será a abordagem da segunda fase do projeto da Embrapa e da Emater. As entidades estão formulando cartilhas para orientar a dona de casa como comprar, como conversar e até como cozinhar os alimentos. São dicas que ajudam a conter o desperdício (veja quadro nessa página) tanto no supermercado como dentro de casa.  

Análise da notícia
Balança pesa contra os consumidores

Estragar tanto alimento é jogar dinheiro fora. A pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) constatou que 14% dos tomates comprados pelos atacadistas ao produtor e revendidos pelos varejistas ao consumidor vão para o lixo. No Distrito Federal, se produz 160 hectares de tomate por ano. O desperdício equivale a 22,4 hectares. É como se toda essa produção sofresse uma grande queimada. Quem é que arca com o prejuízo? Pelos cálculos dos técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão (Emater-DF) conta é paga por toda a sociedade. Ainda não se sabe o quanto exatamente a perda representa. A entidade vai concluir nos próximos meses um estudo que mostrará qual é o prejuízo de cada participante da cadeia pós-colheita: produtor, atacado, varejo e consumidor. Mas, na opinião dos pesquisadores, o estudos vai confirmar o que já se percebe: a maior parte do prejuízo  recai mesmo no bolso do consumidor. ‘‘Vamos definir  quanto cada um gasta com o desperdício, mas com  certeza quem perde mais é o consumidor’’, diz o gerente  de Comercialização da Emater, Mário Felipe de Melo. Para a pesquisadora Milza Moreira Lana, da Embrapa, o comerciante repassa as perdas para o consumidor para não quebrar seu negócio. Na verdade, eles já embutem no preço, os 15% ou até 30% de prejuízo que têm quando os produtos se estragam. Dessa forma, o quilo do tomate que sai por cerca de R$ 1,20 nos sacolões da cidade, poderia até custar R$ 1,03, se 14% do produto que o comerciante compra não fosse para o lixo. O consumidor, sabe-se, tem sua parcela de culta. Ele estraga os alimentos por não saber manuseá-los, por tirá-lo da refrigeração e depois escanteá-lo na boca do caixa e por rasgar as embalagens indevidamente. Mas não erra sozinho. Também já se sabe que os funcionários dos supermercados e os atacadistas cometem os mesmos erros. Termina que todo mundo joga comida fora, mas na divisão da conta o consumidor pagar a maior parte.(F.F.)  

Algumas dicas para o consumidor
Como comprar, conservar e cozinhar as hortaliças  

Escolha as verduras como se fossem ovos. Manipule o   mínimo possível os alimentos — e com muito cuidado. A  Embrapa constatou que grande parte do desperdício é  causado pela manipulação errada dos alimentos. Nada de  apertar, amassar ou espremer.  
Não fure as bandejas dos alimentos embalados. Eles  foram plastificados para melhor conservação.  
Compre em quantidade suficiente apenas para uma  semana. Assim, evita-se o desperdício e consome-se  verduras mais sadias.
Mantenha as verduras no fogo apenas o tempo suficiente  para deixá-las macias. Cozinhando por muito tempo, os  alimentos perdem vitaminas.
Coloque as verduras vendidas picadinhas e descascadas  na geladeira assim que chegar em casa das compras.  Essas hortaliças devem ficar refrigeradas o maior tempo   possível. A regra inclui os produtos congelados.  
Não guarde alimentos como cebola, alho e batata inglesa  na geladeira. Eles não precisam de refrigeração.  
Coloque verduras na geladeira sempre dentro de sacos ou  vasilhas de plásticos. Sem proteção elas duram menos   Compre por último os produtos que estão refrigerados. Não mantenha esses alimentos por muito tempo no carrinho de compras para depois (já no caixa), desistir de levá-los. Eles perdem qualidade nutricional no período que ficam fora da geladeira.
Lave a hortaliças consumidas cruas com água e, também,  com um pouco de hipoclorito (água sanitária). Se não forem bem lavados, alguns alimentos — como   alface, por exemplo — podem transmitir doenças.  
Cozinhe hortaliças no vapor para reservar mais suas  qualidades nutricionais.   
Sirva a salada sempre sem tempero — com o molho  (vinagre, limão etc) à parte. O tempero, depois de um  tempinho, faz murchar as folhas da salada. Além disso, as   verduras destemperadas podem voltar para a geladeira 

De Brasília
Flávia Filipini

(Fonte: Correio Braziliense, 09/05/99, pág. 23)

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